domingo, 16 de outubro de 2016

Creuzinha, na força e na fé

"Existe alguém em nós
Em muito dentre nós esse alguém
Que brilha mais do que milhões de sóis
E que a escuridão conhece também
Existe alguém aqui
Fundo no fundo de você de mim
Que grita para quem quiser ouvir..." (A luz de Tieta)


Ela chega todo dia, super animada, mesmo quando uma gripe fora de hora fica cercando, murchando a disposição. Mas a força ali é titânica, um chá, um remedinho ganho de seu Ademar, o jardineiro, uma boa noite de sono e logo está ela ali do lado chamando ‘Vem tomar um café fresquinho, vem.’, com aquele sorriso grande, amigo. Um café e um papo bom, por vezes acompanhado de puxão de orelha ou um empurrãozinho oportuno e motivador ‘Ó xente, menina, quê isso? Vai sim senhor... Claro que consegue, sô.’ E no final: ‘Vai lá, vai lá que vai dar tudo certo.’ 

O melhor de tudo é que Creuzinha por si só, já é presença motivadora. Recém separada, após 28 anos de casamento, na força e na luta, muitos bons momentos, sete filhos, em meio a muita briga, desgosto, amor e ódio, assim mesmo, junto e misturado, com muito vento e tempestade. Nos últimos tempos de casamento, as tempestades triplicaram, e o desamor só cresceu,  mas nem assim ela deixa de cuidar, de se preocupar. Nada de abraços, pra não afrouxar e voltar atrás. Ajuda sim, porque ruindade ali nao cria raiz, e com ela é só amor e paz, então uma mãozinha sem exagero, no cutucão quando precisa, no exemplo, na boa conversa, com a palavra mansa e firme. Aberta e amiga o necessário, mas sem sustentar malandragem, nem de filho.

No momento ela só quer crescer, apreciar a liberdade de poder fazer o que quer e bem entende, tomar as próprias decisões e não dizer amém, quando quer gritar de raiva, injustiçada, por não ter nada, recebendo as migalhas machistas de Chiquito, o marido avexado com ‘mulher que quer ficar na frente de homem… Quê isso?!’. E Creuza segue, orgulhosa de seu quase império, recém iniciado. O terreno, o barraco na vila Soma, simples mas arrumadinho, pra chamar de seu. Agora nem com o calor ela sofre mais, porque ‘tem até ventilador’ e um... carro! Isso mesmo um carro. O dinheiro o patrão emprestou, e ali está ele. Quando chega em casa, é o primeiro que vê, seu carro, branquinho, lindo. ‘Ai meu Deus’ ri histérica, o coração pulsante de tanta alegria. ‘Dá licença, gente, que eu tou passando. Poderosa euzinha aqui.’ Mais um ‘sonho realizado’, seu lema do momento. ‘Mais um sonho realizado’ grita feliz toda a vez que conta seus feitos.

Esse poder todo veio mesmo com o primeiro celular, que não vai nunca esquecer. Ganhou dos filhos, não faz muito tempo, sob o olhar mal humorado de Chiquito. Em pouco tempo, mesmo lendo ‘malemale’ aprendeu tudo e saiu se comunicando com o mundo. WhatsApp, facebook, Instagram... Achou os parentes que não vê há 25 anos, irmãos, sobrinhos, tios. Todo mundo com a cabeça branca, rostos estranhos que ela teve que olhar muito para reconhecer as feições jovens e infantis que deixou pra trás, junto com a fome lá em Natal pra tentar a sorte em São Paulo. Agora até ensina os outros, sabe direitinho o que é hashtag e sabe também que a esta altura Chiquito ficou para trás. Que depois que seu mundo cresceu não tem mais volta, agora seu olhar está lá adiante, pra lá das fronteiras e ela quer mais, caminhar sempre e pra frente. Aprendeu que é capaz. O mundo espera muito dela e ela não pretende decepcionar. É só o início. Pegou o gosto do sucesso. Orgulho ela sente de si mesma, muito, mas sem exagero. A humildade tá ali juntinho, ‘pauapau’. 

A verdade é que Creuza não sabe, mas ela é uma guerreira ao estilo antigo, um personagem saído dos romances clássicos, ou talvez um tipo que inspirou muito autor. O espírito guerreiro tem valores inerentes, uma alma sábia, conhecedora da vida, da fraqueza humana. Participou de muitas guerras, sabe que os caminhos estão cheios de tentação, ela viu muita gente cair feio e nunca mais se levantar, aprendeu que a maior luta é consigo mesma, sempre, e talvez a maior. Trabalhou em muitos lugares, viu muita riqueza, passou ilesa sem nunca desejar sequer o que não era seu. Por isso desfila orgulhosa de suas conquistas, de seu carrinho branquinho, tão seu, que ela agradece ao patrão e paga com muito gosto. E, no final da tarde, chegando de mais um dia puxado e feliz, ela senta no seu sofá surrado, tão seu, olha feliz seu barraquinho arrumado, limpo, silencioso, cheio de paz, no Salve Jorge, 22, lá no Vila Soma, ‘sim senhor’ e agradece de novo tudo. É um ritual repetido mentalmente cedinho e de noite: ‘Obrigada, meu Deus, pelo meu emprego, pelos patrões bons, pelo meu barraquinho…

Eta, eta, eta, eta…
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